Aprofundando os conhecimentos sobre a socialização e os problemas sociais atuais.

O primeiro cientista social que investigou a fundo o processo de socialização foi o francês Èmile Durkheim. A investigação de Durkheim buscava compreender por que uma coleção de indivíduos é capaz de formar uma sociedade, mesmo com todas as tendências à desagregação e à luta de todos contra todos. Ou seja, como estes indivíduos conseguiam estabelecer consensos e acordos mínimos para a manutenção da ordem social. Durkheim tinha consciência de que a natureza humana era cheia de paixões que muitas vezes representavam ameaça à ordem social. Portanto, deveria haver algum elemento que limitasse estas paixões e as ambições humanas e solidificasse a ordem social. Este elemento, o sociólogo francês identificou estar presente na moralidade coletiva, ao qual chamou de consciência coletiva. A socialização, para Durkheim, é o modo como os grupos transmitem esta consciência coletiva, suas maneiras, regras, leis, para seus membros.


A socialização é fundamental para a ordem social. Podemos nos cumprimentar porque somos socializados com maneiras comuns.

A socialização, deste modo, são os processos pelos quais os indivíduos são inseridos nos padrões compartilhados do mundo social, na linguagem comum, na moral, no aprendizado de matemática e ciências, na profissão. Com isto, fica evidente que tal processo se inicia desde o nascimento e segue por todas as etapas da vida dos indivíduos. O indivíduo vai “assumindo”, ao longo de toda a vida, o mundo social, no qual outros indivíduos já vivem. Este “assumir” pode ser entendido em um sentido intencional, explícito, por meio da educação formal, do ensino religioso, do aprendizado militar, do aprendizado profissional, dos grupos sociais. Mas, também, os indivíduos vão assumindo padrões de comportamento, regras, práticas, de forma implícita, não intencional, simplesmente por estar em contato e em interação com os outros. Ou seja, muitas coisas da sociedade nos são transmitidas sem que tenhamos consciência disso.


Contatos sociais são fontes de socialização. A todo o momento estamos interagindo.

No entanto, a socialização não pressupõe indivíduos totalmente flexíveis a absorver os padrões que lhes são disponibilizados na vida social. Os indivíduos variam demasiadamente em relação à disposição de ser socializado. Deste modo, podemos falar em níveis de socialização.

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A socialização apresenta níveis, o indivíduo também participa do processo de internalização.


Pode-se verificar nestes níveis desde indivíduos que respondem passivelmente à inculcação dos padrões da sociedade até aqueles que recorrentemente resistem à socialização, o que pode levar a padrões comportamentais chamados desviantes, ou seja, aqueles padrões comportamentais não esperados em uma determinada situação. Este caso é muito comum quando nos deparamos com grupos sociais que apresentam determinados comportamentos que desconhecemos, os punks, por exemplo. Quando isso ocorre, podemos aprender novos códigos de conduta ou resistir a aprendê-los, mantendo-nos em uma condição de desvio em relação ao padrão aceito.


O comportamento desviante como falta de socialização.


A socialização primária

A socialização primária é a socialização realizada na infância, na qual ocorre a inclusão do indivíduo na sociedade, ou seja, o ser humano torna-se membro. A interação que ocorre nesta fase se dá entre indivíduos envolvidos em relações com alto grau de emotividade. A criança a ser socializada recebe um conjunto de preceitos impostos no interior da família: a moral, os modos de comportamento, os hábitos familiares. Tudo isto que lhe é apresentado adquire uma objetividade, ou seja, se apresenta como uma verdade inquestionável, devido ao fato de a natureza da relação dos pais com os filhos pequenos ser de controle total dos pais sobre os filhos. Em um determinado momento de desenvolvimento da criança, a socialização pode ser percebida quando a criança sente vergonha de estar nua na presença de estranhos: é a sociedade, os valores que os pais inculcaram agindo sobre ela. Os pais e os outros envolvidos na socialização dos primeiros anos de desenvolvimento da criança transmitem aquilo que podem e lhes são apropriados de acordo com sua localização na estrutura da sociedade.

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Os pais são os primeiros agentes socializadores da criança.

A criança assume o mundo social onde vive aqueles que lhe servem de exemplo, adquirindo valores, modos de se comportar, gestos corporais, linguagem daqueles que no momento da socialização primária lhe estão mais próximos. Assume, por exemplo, aquilo que é fundamental para a sua identidade, que é o seu nome próprio (“eu sou João”, “Maria”, “Caio”...). Deste modo, pode-se perceber o papel da socialização na construção da personalidade. Desde cedo já começa a ser introduzido nos papéis sociais disponíveis em sociedade, por meio, por exemplo, das brincadeiras infantis, como a “casinha”, os “jogos de guerra” e o “carrinho”.


As brincadeiras infantis como mecanismo de socialização.


A socialização secundária

A socialização secundária se refere à interiorização das instituições sociais pela consciência individual já formada na socialização primária. Ou seja, dar-se em uma etapa da vida em que o indivíduo já se sente membro da sociedade, já possui a linguagem, personalidade, crenças e modelos que refletem o seu lugar na estrutura da sociedade. A socialização secundária depende do tipo de sociedade em que ocorre e é influenciada, acima de tudo, pela divisão do trabalho social dessa sociedade, ou seja, a especialização e complexificação das funções sociais em uma dada sociedade, os postos de trabalho, as profissões, as atividades profissionais. Tudo isso leva à criação de instituições sociais mais complexas, concomitantemente.


A divisão do trabalho social estrutura a socialização, já que as fontes de socialização se complexificam.

Decorre que, nestas sociedades, a socialização primária não basta ao indivíduo para que ele viva satisfatoriamente, torna-se imperativo a ele a necessidade de uma outra “camada de socialização”, a secundária, que vai ser definida pela escola, os grupos profissionais, religião, a vida econômica, a comunicação de massa, família, casamento, entre outras instituições. Ou seja, é o processo pelo qual o indivíduo ganha um papel social.


A escola é uma etapa da socialização secundária dos indivíduos.

No interior destas instituições, o indivíduo é exposto a novos símbolos, a novos rituais, a uma nova linguagem, os quais não estavam presentes na socialização primária. O que o indivíduo adquire é um novo corpo de conhecimento desses “submundos parciais”, conhecimentos profissionais, por exemplo, que não respondem pela totalidade de sua vida, ao contrário da socialização primária, que é totalizante. Isto quer dizer que o indivíduo não se reduz à sua personalidade econômica ou jurídica. Nenhuma dessas instituições consegue se impor como a única realidade, o que ocorre na socialização primária, quando o indivíduo é totalmente dependente dos pais.



Os distintos níveis de socialização levam a personalidades diferentes.

A socialização primária e secundária vai construindo na personalidade do indivíduo um mundo social coerente e seguro, com comportamentos padronizados (como eu devo me sentar à mesa, como cumprimento as pessoas, como devo trabalhar, entre outros), uma linguagem comum (com os códigos estruturados, gírias, gestos comuns) e instituições internalizadas (trabalho, economia, religião, entre outras). Com a socialização, o indivíduo incorpora o que a sociedade é, reproduzindo os rituais de seu grupo, suas crenças religiosas, as atribuições profissionais que aprendeu. A sociedade se torna estável para o indivíduo através dos processos de socialização. Dito de outra maneira, a socialização é o sustentáculo da ordem social.


A estabilidade da sociedade depende da socialização da personalidade do indivíduo.


A sociedade e a socialização inadequada

Qualquer sociedade para existir necessita da socialização de novos membros, ou seja, fornecer seus padrões a outros indivíduos. Sem este processo de construção de padrões comuns, poderíamos imaginar que a sociedade seria extremamente fragmentada, com cada indivíduo vivendo segundo preceitos próprios, sem possibilidade de comunicação entre eles, o que acarretaria a falência de instituições básicas como a família. Vamos lembrar que para Durkheim, a sociedade necessita de um consenso mínimo entre seus membros. De outro modo, mesmo que a socialização esteja operando razoavelmente, com os indivíduos reproduzindo a linguagem comum, um consenso básico sobre o que é certo e errado, não se pode dizer que o processo de socialização seja completamente eficaz e para todos os indivíduos. Isto cria problemas para a sociedade e para o indivíduo, como, por exemplo, o déficit de aprendizagem pela falha no sistema de ensino ou o desaparecimento de determinados grupos como resultado da falta de membros necessários à reprodução de suas instituições.

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Devemos sempre ter em mente que as sociedades complexas - ou seja, aquela em que a divisão do trabalho é aprofundada, com várias instituições diferentes, postos de trabalho, grupos sociais diferentes, papéis sociais distintos, uma legislação mais diversificada – têm mais dificuldade de socializar a totalidade de seus membros do que aquelas sociedades mais simples, indiferenciadas. Nestas últimas, os indivíduos são praticamente iguais, deste modo, em qualquer grupo que a criança nasça, um tipo idêntico de socialização será processado. No caso das sociedades complexas, porém, existem diversas instituições que “compensam” a ausência de socialização de outras. Por exemplo, se a família não ensina aos filhos que responsabilidade e respeito são importantes, ela não passa a seus filhos os padrões da sociedade e, necessariamente, este indivíduo experimentará situações em que isto lhe será cobrado, por exemplo, na escola. E mesmo que a escola não o faça, ele ainda estará exposto a um ato desrespeitoso que pode render-lhe um processo judicial ou mesmo a prisão.


Em sociedades complexas, a socialização pode ocorrer nos mais variados grupos.

No entanto, não devemos pensar que a socialização funciona sempre como uma norma a ser seguida. Lembremos que a socialização é dialógica, ou seja, envolve dois lados no processo: o indivíduo e a sociedade. Neste caso, a socialização por meio da norma e sanção pode implicar, em contrapartida, a recusa do indivíduo em participar daquele conjunto de regras, valores e costumes comuns. Em casos extremos, como nos regimes ditatoriais e totalitários, o indivíduo que se recusa a internalizar os valores do regime pode ser submetido às mais variadas sanções, inclusive à morte. Nestes mesmos regimes, grupos inteiros são prejudicados, desde aqueles que não falam a mesma língua nacional, até aqueles que não comungam os valores políticos do grupo no poder.


Os regimes totalitários tendem a exigir o consenso de todos os membros, punindo aqueles que não aceitam seus valores.

Uma questão que se impõe é: Pode haver uma ressocialização do indivíduo, levando-o ao esquecimento de sua personalidade anterior? O que deve ser posto como parte da resposta é que a socialização só se conserva internalizada na personalidade do indivíduo se esta for reforçada no grupo ao qual faz parte. Por exemplo, alguém que mantém a fé católica só preservará tal fé se os conteúdos internalizados forem recorrentemente reforçados. Se o conjunto ritual se mantém, se os grupos internos são coesos, enfim, se a realidade daquela fé específica for reproduzida, é possível que os valores internalizados nos membros se mantenham, caso contrário pode ocorrer o contínuo abandono da identidade católica.


A internalização da sociedade pela socialização necessita de reforço contínuo, presente, por exemplo, nos rituais religiosos.

Ou seja, há a possibilidade da realidade interiorizada pelo indivíduo, seu mundo subjetivo, ser transformada quando tal realidade não é reforçada no mundo social do qual faz parte, ou seja, se os membros já não possuem os mesmos valores, se os padrões não são mais reproduzidos. Se as condições objetivas não se reproduzirem, por exemplo, em situação de crise social, é possível que a realidade subjetiva também não se reproduza. Nestas condições, há a transformação da realidade subjetiva do indivíduo levando-o a um processo conhecido como “alternação”. Após tal processo, o indivíduo passa, inclusive, a ver as coisas de forma totalmente diferente, já que seu mundo subjetivo foi radicalmente “alternado”.

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A alternação é um processo de ressocialização que leva o indivíduo a mudar radicalmente a forma como vê as coisas.